Introdução à Cartografia Social
A cartografia social constitui um instrumento metodológico relevante para o planejamento do uso público em parques, na medida em que integram conhecimentos locais e percepções territoriais que, em geral, não são captadas por levantamentos secundários ou por ferramentas de mapeamento convencionais, como plataformas digitais de georreferenciamento. Entendida como um processo de automapeamento que articula dimensões espaciais, simbólicas e culturais do território, a cartografia social permite identificar atrativos, pontos de memória, vivências comunitárias e saberes relevantes, fortalecendo identidades coletivas e ampliando o entendimento sobre o uso público em Unidades de Conservação (UCs). Ao reconhecer e sistematizar os saberes locais, a cartografia social contribui para a construção de decisões mais contextualizadas e aderentes às realidades territoriais.

O Projeto Roteiros
O Projeto Roteiros é uma iniciativa do Instituto Estadual do Ambiente do estado do Rio de Janeiro (Inea), por meio da Diretoria de Biodiversidade, Áreas Protegidas e Ecossistemas (DIRBAPE), através de sua Gerência de Visitação, Negócios e Sustentabilidade (GERVINS), executado pela eTrilhas Projetos LTDA e financiado com recursos de compensação ambiental por meio do Fundo da Mata Atlântica sob gestão do Fundo Brasileiro para a Biodiversidade (FUNBIO). O Projeto está inserido no âmbito do Programa de Apoio à Sustentabilidade Econômica das Unidades de Conservação estaduais e tem como objetivo apoiar a sustentabilidade econômica das mesmas por meio de ações que promovam a geração de renda, o desenvolvimento local e a ampliação da oferta de produtos e serviços voltados ao turismo de natureza.
O projeto abrange cinco Parques Estaduais do Rio de Janeiro: Parque Estadual Cunhambebe (PEC), Parque Estadual da Pedra Branca (PEPB), Parque Estadual da Serra da Tiririca (PESET) + Reserva Extrativista Marinha de Itaipu (RESEXIT), Parque Estadual do Desengano (PED) e Parque Estadual dos Três Picos (PETP).

Em uma de suas subetapas, o Projeto visa aplicar a cartografia social como ferramenta participativa para o levantamento do território a partir das percepções, usos e significados atribuídos pelas comunidades locais no entorno das UCs abrangidas. A eTrilhas aplicou esta metodologia com ênfase na produção de informações a partir do olhar de moradores do entorno, parceiros locais, guias e condutores, trabalhadores do turismo, gestores e guarda-parques, bem como de usuários do território, possibilitando a identificação de dinâmicas socioespaciais e de referências ambientais e socioculturais relevantes para o uso público das UCs. A metodologia previu a realização de Oficinas de Mapa Falado, com mobilização articulada com as equipes gestoras das UCs.
Aplicando a Cartografia Social – Oficinas de Mapa Falado
A cartografia social foi aplicada entre os dias 15 de outubro e 04 de dezembro de 2025, quando foram realizadas sete Oficinas de Mapa Falado nos cinco parques contemplados pelo Projeto Roteiros. Para apoiar o processo de mobilização, foram criados grupos de WhatsApp com participantes que responderam ao formulário da etapa anterior, de diagnóstico turístico. Cards informativos sobre as oficinas foram divulgados nesses grupos, além de ações complementares de divulgação realizadas pelas gestões dos Parques, por meio de suas redes sociais, grupos dos conselhos consultivos, parceiros institucionais e outros coletivos com potencial interesse.
| Unidade de Conservação | Data | Local |
| Parque Estadual Cunhambebe | 16/10/2025 | Sede do Parque (Mangaratiba) |
| Parque Estadual da Pedra Branca | 31/10/2025 | Centro de Convivência da Horta Comunitária do Quilombo Dona Bilina (Rio de Janeiro) |
| Parque Estadual da Serra da Tiririca + Reserva Extrativista Marinha de Itaipu | 07/11/2025 | Museu de Arqueologia de Itaipu (Niterói) |
| Parque Estadual do Desengano | 19 e 20/11/2025 | Sede do Parque (Santa Maria Madalena) + Associação dos Pequenos Produtores Rurais e Quilombolas de Aleluia, Batatal e Cambucá (Campos dos Goytacazes) |
| Parque Estadual dos Três Picos | 03 e 04/12/2025 | Colégio Ibelga (Nova Friburgo) + Subsede Vale da Revolta (Teresópolis) |
Em cada oficina, o território do Parque em questão foi dividido em quatro ou cinco seções, com a impressão de mapas em formatos A2 ou A1. Os participantes trabalharam sobre quatro categorias temáticas, cada uma representada por uma cor específica:
🟢 Atrativos naturais (verde);
🟡 Lugares de memória (amarelo);
🟠 Atividades e experiências (rosa ou laranja); e
🔵 Empreendimentos turísticos (azul).
Os participantes foram organizados em grupos e passaram a circular entre os mapas em rodadas sucessivas, com duração aproximada de 20 a 30 minutos cada. Em cada rodada, os grupos dialogavam sobre o território representado, resgatavam memórias, identificavam lugares de referência e registravam coletivamente as informações nos mapas com adesivos coloridos. Para cada área mapeada, foram identificados e anotados nas fichas disponibilizadas elementos correspondentes às categorias previamente definidas, numerados de forma sequencial.

Após o preenchimento dos mapas, realizou-se uma leitura coletiva dos pontos registrados para verificar:
- Possíveis repetições;
- Legibilidade das anotações; e
- Justificativas para inclusão de determinados locais, especialmente na categoria lugares de memória.
Os insumos gerados por esse processo de cartografia social têm permitido uma compreensão integrada das potencialidades, possibilidades de arranjos territoriais e lacunas existentes para cada Unidade de Conservação.
A partir das informações coletadas nas Oficinas, procedeu-se à digitalização dos dados levantados. Esse processo utilizou como base os arquivos digitais que originaram os mapas impressos empregados nas oficinas, os registros fotográficos dos mapas anotados durante os encontros presenciais e as listas descritivas dos locais identificados pelos participantes. Ao final, as informações foram consolidadas em arquivos digitais organizados por Unidade de Conservação, disponibilizados em diferentes formatos (shapefile, KMZ e links do Google My Maps).
Ao final do período de edição colaborativa dos mapas, será realizada uma etapa de conferência e validação das informações levantadas, por meio do cruzamento com diferentes bases de dados existentes, tais como planos de manejo, Wikiloc, inventários turísticos e bases oficiais, entre outras fontes pertinentes.
Cartografia Social como ferramenta crucial
Os resultados desta etapa indicam que o processo de cartografia social não deve ser compreendido apenas como uma etapa diagnóstica, mas como um instrumento de mobilização territorial e um elemento estruturante na construção dos roteiros turísticos. Ao explicitar usos, práticas e referências territoriais a partir da perspectiva dos atores locais, os Mapas Falados forneceram insumos qualificados para:
- A definição de narrativas territoriais integradas, articulando dimensões ambientais, culturais e históricas;
- A construção de roteiros temáticos fundamentados em práticas reais de uso e apropriação do território, como pesca artesanal, paisagens costeiras, agroecologia e memórias quilombolas e indígenas; e
- O alinhamento entre conservação ambiental, uso público e reconhecimento dos modos de vida locais, fortalecendo abordagens participativas.

Os registros oriundos da cartografia social ajudam a incorporar dimensões simbólicas, sociais e práticas do território, ampliando de forma consistente as possibilidades de roteirização participativa, socialmente legitimada e conectada às dinâmicas locais.
