O Cicloturismo como ferramenta de conservação, uso público e desenvolvimento territorial

por Luiz Saldanha

O cicloturismo não se define apenas pelo estereótipo já reconhecido da cicloviagem, na qual a bicicleta é o principal modo de transporte em uma viagem com pernoites em diferentes localidades. O termo abrange quaisquer atividades recreativas utilizando a bicicleta, ou seja, qualquer uso com motivação de turismo e de lazer dentro e fora da região de residência de seu praticante é considerado cicloturismo. Assim, o cicloturismo envolve desde passeios urbanos e rurais a trilhas de ciclismo de montanha (mountain bike) em áreas naturais.

Esta amplitude do termo nos permite compreender que o cicloturismo pode ocorrer e ser promovido de maneiras distintas: seja de forma autônoma ou guiada, seja de forma solitária ou acompanhada, e seja até mesmo para participar de eventos ciclísticos de qualquer natureza (competitivo profissional ou amador e contemplativo). Todo o tipo de terreno pode ser usado para se realizar cicloturismo, e a escolha de um ou de uma mistura deles influencia em toda a experiência da atividade: estradas asfaltadas, estradas de terra, trilhas simples ou acidentadas e até mesmo solos arenosos, como praias e dunas. Diferentes modelos de bicicleta com distinção nos quadros, suspensão e rodas, por exemplo, existem para se adaptar a cada realidade encontrada.

O cicloturismo não se define apenas pelo estereótipo já reconhecido da cicloviagem

Os benefícios do cicloturismo são bem conhecidos, sendo uma atividade que promove a saúde e sociabilidade de quem a pratica, permite o desenvolvimento da economia local e fomenta a restauração ambiental. Além de estimular o contato direto com a natureza, a bicicleta aproxima seus usuários às pessoas nos arredores por onde passa, capilarizando a distribuição de renda em comércios e serviços como padarias, mercados e oficinas de bicicleta. Quando feito com o manejo adequado em áreas naturais, as trilhas para bicicleta são importantes ferramentas para regeneração dos ecossistemas da região. 

Cicloturismo nas Unidades de Conservação

O lançamento do Guia de sinalização de rotas de cicloturismo e de trilhas de ciclismo de montanha, em junho de 2025, evidencia o posicionamento do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) em favor do uso público por bicicletas em Unidades de Conservação (UCs), alinhando-se a uma tendência que vem se consolidando  desde a pandemia. Em muitos casos, o uso da bicicleta já ocorre de forma espontânea nessas áreas, mas é preciso evidenciar seus benefícios socioambientais,organizar e qualificar sua operacionalização de forma planejada e segura.

O Guia, publicado pelo órgão federal em parceria com instituições de ampla atuação nacional pela causa da bicicleta como a Aliança Bike, a Rede Brasileira de Trilhas e o Observatório do Cicloturismo, tem como objetivo orientar a implantação de roteiros de ciclismo seguros e bem-sinalizados por todo o território brasileiro. Ao abordar a padronização nacional da sinalização desde sua concepção, as etapas expostas pelo documento partem do princípio de que a rota já deve ter um planejamento prévio e traçado definido, com envolvimento de atores locais para engajamento no processo de implantação da sinalização e para sua futura governança.

Cicloturismo nas Unidades de Conservação

Se organizar direitinho, todo mundo pedala

Em muitos casos, há uma boa convivência entre ciclistas e gestores de UCs, muitas vezes a própria equipe técnica e guarda-parques utilizam a bicicleta para recreação ou deslocamentos diários dentro e no entorno destas áreas. Contudo, muitos conflitos que envolvem o uso da bicicleta podem ser solucionados com diálogos e ações colaborativas. Estes conflitos podem ser entre ciclistas e pedestres, motociclistas, motoristas de carro e até mesmo junto aos gestores diretamente. Apesar de cada caso possuir sua particularidade, as soluções podem assumir dinâmicas similares.

Do lado dos ciclistas, faz-se relevante se aproximar de quem toma as decisões na UC para apresentar demandas e sugerir soluções. Nestas interações, é importante lembrar que para além de ser uma prática corporal que envolve a atividade física com relacionamentos sociais marcantes (em especial na constituição dos grupos de pedal), o cicloturismo proporciona um fluxo de visitação de baixo impacto que ajuda a coibir usos indevidos nestas localidades como caça, queimadas e outros atos criminosos. Por sua vez, é importante que os ciclistas também tenham uma abertura para escutar sobre as preocupações, diretrizes de uso público e limitações impostas, buscando convergir para soluções e iniciativas em conjunto.

o cicloturismo proporciona um fluxo de visitação de baixo impacto

É fundamental que os gestores de UCs compreendam a bicicleta como um instrumento de uso público favorável para estratégias de conservação. Enquanto o uso de motos em trilhas causa erosão e poluição sonora, as trilhas para bicicletas exigem um manejo relativamente simples que ainda ajuda na própria restauração da vegetação e drenagem de córregos e águas da chuva. 

Quando há o conflito de ciclistas e caminhantes, em especial quando causado pela alta velocidade das bicicletas nas trilhas compartilhadas, deve-se considerar a abertura de trilhas paralelas que permitam os respectivos usos exclusivos – como foi feito no Parque Nacional da Tijuca (PNT), que chegou a impedir o uso de bicicleta nas trilhas e hoje possui uma quantidade significativa e variada de trilhas exclusivas para a prática do ciclismo.

Ainda, a população do entorno de trilhas e roteiros de bicicleta consolidados se beneficiam tanto com a possibilidade de geração de renda, quanto pelo acesso a uma nova atividade de lazer ao ar livre ou a um caminho mais seguro para se deslocar no dia a dia.

Cicloturismo nos parques estaduais fluminenses

No estado do Rio de Janeiro, tem-se os destaques para o uso público por bicicleta do PNT e do Parque da Cidade de Niterói (PARNIT). Em ambos os parques, há uma infraestrutura bem consolidada e um fluxo considerável de ciclistas durante todos os dias da semana. No âmbito da gestão estadual, o Instituto Estadual do Ambiente (Inea) é reconhecido nacionalmente pelos programas de visitação aos parques, como Vem passarinhar, Vem caminhar, Vem ver o céu e, é claro, o Vem pedalar. Este último promove a visitação das UCs do estado do Rio por meio de eventos ciclísticos contemplativos.

Os eventos não limitam apenas a categorias de UCs que permitem a realização de passeios dentro de seus limites, como o caso dos parques estaduais, mas também envolvem o entorno de unidades que restringem integralmente o uso público, especialmente em reservas biológicas. Ressaltam-se os exemplos de eventos no entorno da Reserva Biológica de Araras e na APA Estadual do Alto Iguaçu , os quais mobilizaram ciclistas de diferentes municípios e aqueceram a economia local de seus arredores.

O Projeto Roteiros, que vem sendo executado pela eTrilhas, tem como objetivo fortalecer a sustentabilidade econômica de algumas UCs estaduais por meio do desenvolvimento de produtos turísticos estruturados, promovendo a geração de renda, a valorização dos territórios e a organização da visitação.  Nesta contexto, pretende fortalecer as atividades de cicloturismo como um dos pilares para o fomento do uso público. Trilhas de mountain bike são bastante utilizadas por ciclistas do entorno no Parque Estadual da Pedra Branca (no município do Rio de Janeiro) e no Parque Estadual da Serra da Tiririca (nos municípios de Niterói e Maricá). 

Enquanto isso, rotas de cicloturismo consolidadas e em desenvolvimento foram identificadas no entorno do Parque Estadual do Cunhambebe, do Parque Estadual do Desengano e do Parque Estadual dos Três Picos. Neste último, há um trecho da Rota Serra Verde Imperial que atravessa a UCs por uma de suas trilhas internas.

A ideia é que, ao fortalecer os laços com ciclistas que já frequentam a região, ao trazer novos ciclistas a conhecerem estas localidades e seus entornos e ao demonstrar para a população lindeira das UCs que o cicloturismo traz muitos benefícios para baixos impactos, seja criada uma sinergia para a perpetuação e aprimoramento da atividade junto aos gestores e equipes técnicas. Assim, o projeto busca consolidar o cicloturismo como uma estratégia integrada de conservação, uso público e desenvolvimento territorial.