Afroturismo em áreas protegidas: Natureza e valorização de territórios negros

por Thaís Rosa Pinheiro

O Afroturismo é uma vertente do turismo que propõe roteiros e experiências centrados na história e na cultura da afrodiáspora. No Brasil, a prática tem como foco a valorização de patrimônios, saberes e expressões culturais afro-brasileiras, sendo protagonizada por pessoas negras e comunidades tradicionais. Além de impulsionar a economia local, o Afroturismo se consolida como ferramenta educativa, promovendo o reconhecimento da herança africana na formação da sociedade brasileira.

A iniciativa inclui visitas a patrimônios históricos, povos de terreiro e comunidades quilombolas, fortalecendo a sustentabilidade dos territórios e estimulando a reconexão com identidades e memórias coletivas. Também contribui para processos formativos voltados à equidade racial, ao desenvolvimento econômico e à promoção de práticas antirracistas (MTur, 2025).

O afroturismo tem como foco a valorização de patrimônios, saberes e expressões culturais afro-brasileiras
Foto: Miguel Pinheiro

No contexto das áreas protegidas, essa abordagem tensiona uma narrativa ainda predominante no país: a de que as Unidades de Conservação são espaços exclusivamente naturais, dissociados da presença humana. Essa visão, historicamente difundida, acaba por invisibilizar o protagonismo de populações negras que, há séculos, habitam, manejam e preservam esses territórios.

Comunidades quilombolas e grupos tradicionais de matriz africana desenvolveram modos de vida profundamente integrados à natureza, baseados em saberes ancestrais e práticas sustentáveis que articulam conservação ambiental, cultura e identidade. 

Afroturismo em áreas protegidas

Nas áreas protegidas brasileiras, a narrativa predominante ainda associa conservação ambiental à ausência de presença humana. No entanto, essa perspectiva ignora uma dimensão fundamental da história do país: a presença e o protagonismo de comunidades negras que, há séculos, habitam, cuidam e constroem esses territórios.

Para comunidades negras tradicionais, a natureza não é apenas recurso — é território de vida, memória e espiritualidade. O uso de plantas medicinais, as práticas agrícolas ancestrais e a relação com rios, matas e montanhas expressam uma cosmovisão na qual cultura e natureza são inseparáveis. Esses modos de vida revelam conhecimentos sofisticados sobre biodiversidade, nutrição e sustentabilidade, transmitidos de geração em geração.

Afroturismo em áreas protegidas
Foto: Miguel Pinheiro

Nesse contexto, o Afroturismo surge como estratégia de valorização histórica, cultural e econômica. A proposta reposiciona as comunidades como sujeitas históricas e guardiãs do território, e não como obstáculos à conservação. Ao evidenciar trajetórias de resistência, ancestralidade e pertencimento, contribui para o reconhecimento dessas populações como parte indissociável da paisagem cultural e ambiental.

A força das manifestações afro-brasileiras é central para o turismo no país. Festas e celebrações populares, expressões de espiritualidade, música, dança e gastronomia compõem parte significativa dos atrativos turísticos nacionais. A culinária de matriz africana, por exemplo, carrega saberes, memórias e técnicas tradicionais que articulam ingredientes locais, preparo coletivo e respeito aos ciclos da natureza.

No Afroturismo, a experiência do visitante vai além da contemplação da biodiversidade. Por meio de visitas guiadas, roteiros de memória, narrativas de moradores locais e vivências culturais, o território é apresentado também em sua dimensão histórica, social e simbólica. A experiência turística passa a se construir a partir de patrimônios imateriais: saberes sobre plantas medicinais, histórias de resistência, festividades e práticas culturais.

Quando estruturado de forma participativa e comunitária, o Afroturismo se consolida como instrumento de geração de renda, fortalecimento identitário e valorização histórica. Permite que as próprias comunidades contem suas trajetórias, definam suas narrativas e estabeleçam os limites éticos da visitação. Mais do que atividade econômica, transforma-se em ferramenta de educação patrimonial, ambiental e antirracista.

Projeto Roteiros e a valorização do Afroturismo

Projeto Roteiros é uma iniciativa do Instituto Estadual do Ambiente do estado do Rio de Janeiro (Inea), por meio da Diretoria de Biodiversidade, Áreas Protegidas e Ecossistemas (DIRBAPE), através de sua Gerência de Visitação, Negócios e Sustentabilidade (GERVINS), executado pela eTrilhas Projetos LTDA e financiado com recursos de compensação ambiental por meio do Fundo da Mata Atlântica sob gestão do Fundo Brasileiro para a Biodiversidade (FUNBIO).

O Projeto está inserido no âmbito do Programa de Apoio à Sustentabilidade Econômica das Unidades de Conservação estaduais e tem como objetivo apoiar a sustentabilidade econômica das mesmas por meio de ações que promovam a geração de renda, o desenvolvimento local e a ampliação da oferta de produtos e serviços voltados ao turismo de natureza.

No estado do Rio de Janeiro, o Projeto abrange cinco parques estaduais que possuem, em seus limites ou entorno, comunidades tradicionais, sobretudo quilombolas. No Parque Estadual da Pedra Branca estão as comunidades Quilombo Cafundá Astrogilda, Quilombo Dona Bilina e Quilombo do Camorim. No Parque Estadual da Serra da Tiririca, localiza-se o Quilombo do Grotão. Já no Parque Estadual Cunhambebe encontram-se as comunidades quilombolas do Alto da Serra, Santa Justina e Santa Isabel, além do Quilombo do Bracuí. No Parque Estadual do Desengano, as comunidades quilombolas do Aleluia, do Cambucá, e do Batatal.

Esses territórios são atravessados por histórias de resistência negra. Reconhecer sua presença é afirmar que a conservação da natureza, no Brasil, sempre esteve associada às práticas e aos modos de vida dessas populações. Dessa forma, o Projeto busca viabilizar a valorização do Turismo de Base Comunitária nos parques estaduais fluminenses.

Afroturismo: Samba e feijoada com a comunidade do Quilombo do Grotão, no Parque Estadual da Serra da Tiririca
Afroturismo: Samba e feijoada com a comunidade do Quilombo do Grotão, no Parque Estadual da Serra da Tiririca – Foto: Miguel Pinheiro / Acervo Conectando Territórios

Ao integrar conservação ambiental, valorização cultural e direito à memória, o Afroturismo contribui para a democratização do acesso à história negra e reforça a compreensão de que não há justiça ambiental sem justiça racial. Em áreas protegidas, representa a possibilidade de reconciliar preservação da natureza com reconhecimento histórico, garantindo que comunidades negras possam existir, narrar suas histórias e construir caminhos de desenvolvimento alinhados aos seus próprios valores e modos de vida.