por Ingrid Pena
Cada vez mais presente nas Unidades de Conservação (UCs) do estado do Rio de Janeiro, o Turismo de Base Comunitária (TBC) vem se consolidando como uma alternativa ao modelo convencional de turismo. Centrado no protagonismo das comunidades anfitriãs, o TBC propõe uma forma de visitar territórios protegidos que alia conservação ambiental, valorização cultural e geração de renda local.

De acordo com a Política Nacional de Turismo de Base Comunitária (2023), o TBC é um modelo de organização e gestão que assegura a participação ativa das comunidades nos processos de planejamento, tomada de decisão, operação e repartição dos benefícios da atividade turística. Mais do que um segmento de mercado, trata-se de um paradigma alternativo de desenvolvimento, fundamentado na cooperação, na solidariedade, na hospitalidade e na valorização dos modos de vida locais.
Experiências brasileiras mostram que o turismo de base comunitária assume formatos diversos, adaptados aos contextos históricos, sociais e ambientais de cada território, contribuindo para o respeito à diversidade sociocultural e territorial do país.
Turismo de Base Comunitária, onde comunidades tradicionais e conservação caminham juntas
O Turismo de Base Comunitária, no contexto das Unidades de Conservação, é desenvolvido majoritariamente por comunidades tradicionais, rurais e por associações, cooperativas e coletivos comunitários. Nessas áreas, o turismo cumpre um papel estratégico ao articular a visitação com os objetivos de conservação ambiental e de salvaguarda do patrimônio sociocultural.

Segundo diretrizes do ICMBio (2018), o Turismo de Base Comunitária em UCs é caracterizado pela gestão da visitação protagonizada pelas comunidades locais, promovendo benefícios coletivos, vivências interculturais, valorização da história e da cultura dos povos tradicionais e o uso sustentável dos recursos naturais para fins recreativos e educativos.
Ao fortalecer a conservação da sociobiodiversidade e estimular a participação social na gestão das áreas protegidas, o TBC contribui diretamente para os objetivos do Sistema Nacional de Unidades de Conservação da Natureza (SNUC). Além disso, favorece processos de educação ambiental, geração de renda complementar e fortalecimento da autonomia comunitária, desde que respeitados os limites ecológicos e as normas de uso público das UCs.
Experiências quilombolas e comunitárias nos parques estaduais fluminenses
Nos parques estaduais fluminenses, comunidades tradicionais vêm consolidando experiências de TBC articuladas à conservação ambiental, à valorização cultural e à permanência digna no território. No entorno do Parque Estadual do Cunhambebe, o Quilombo do Alto da Serra do Mar alia agricultura tradicional, transmissão de saberes e recepção de visitantes interessados em seus modos de vida. No Parque Estadual da Pedra Branca, os quilombos Cafundá-Astrogilda e Dona Bilina se destacam por iniciativas de turismo pedagógico, ações culturais, ecomuseus e empreendimentos gastronômicos protagonizados por mulheres. Já no Parque Estadual do Desengano, comunidades quilombolas articulam agroecologia, condução de trilhas e valorização da culinária tradicional, integrando conservação da natureza e geração de renda.

No entorno do Parque Estadual da Serra da Tiririca e da Reserva Extrativista Marinha de Itaipu, quilombolas e pescadores fortalecem redes de resistência por meio de feiras, eventos e vivências culturais, passeios interpretativos e ações de educação ambiental. Apesar dos avanços, persistem desafios fundiários, jurídicos e institucionais, evidenciando a necessidade de políticas integradas e de longo prazo. Nesse cenário, o Projeto Roteiros atua na qualificação, na articulação e na ampliação da visibilidade dessas experiências, fortalecendo o TBC como estratégia de geração de renda, proteção da sociobiodiversidade e afirmação dos territórios tradicionais.
Projeto Roteiros aposta no protagonismo comunitário
É nesse cenário que se insere o Projeto Roteiros, que dialoga diretamente com os princípios do Turismo de Base Comunitária ao reconhecer e valorizar o protagonismo das comunidades locais na construção, organização e operação das experiências turísticas em seus territórios.
A iniciativa integra o Programa de Sustentabilidade das Unidades de Conservação, conduzido pelo Instituto Estadual do Ambiente (Inea), com apoio do Fundo Brasileiro para a Biodiversidade (FUNBIO), e tem como objetivo fortalecer o turismo sustentável, o empreendedorismo local e a conservação da biodiversidade.

Ao incentivar a estruturação de roteiros turísticos enraizados nas práticas produtivas locais e nas relações de pertencimento ao território, o Projeto Roteiros reafirma o turismo como uma ferramenta estratégica de fortalecimento da identidade, da autonomia comunitária e do desenvolvimento local. Mais do que promover a visitação, a iniciativa busca qualificar experiências que estimulem o uso sustentável dos recursos naturais, a educação ambiental e a valorização da sociobiodiversidade presente nas áreas protegidas do estado, contribuindo para a conservação ambiental aliada à justiça social e ao reconhecimento dos modos de vida tradicionais.
